BLOG DO RONY CURVELO

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domingo, 19 de abril de 2009

Os Retornados


No escritório onde trabalhava em Miami, contratei uma secretária angolana. Uma senhora de aproximadamente 60 anos, que depois de uma longa conversa, descobri ter uma história que precisava ser contada. Ela estava nos Estados Unidos já há 10 anos e também havia morado no Brasil por 14 anos. Com seu sotaque português e muita simpatia, durante várias semanas, conversamos e passei a anotar tudo o que dizia, depois que ela concordou que eu tornasse público sua história.

Angola foi uma colônia de Portugal de 1482 a 1975, quando Agostinho Neto, presidente do MPLA, Movimento Pela Libertação de Angola, declarou independência.

Para chegar até este momento de independência houve muitas guerras e muitos mortos, durante 14 anos de conflitos. Neste período de guerra interna pelo poder, o governo português combinou com os partidos formados por angolanos como o MPLA, UNITA e o FNLA, que o governo passaria a ser formado por todos, em partes iguais. “Eles queriam ensinar os angolanos a governar, mas os partidos faziam guerra entre eles e se matavam”, explica a protagonista desta história.

Em 1975 foi criado o governo de transição. Todos os ministérios eram distribuídos entres partidos. “Tudo tinha que ser em partes iguais, senão dava briga, com tiros e mortes. Era horrível” nos conta emocionada.

Portugal enfrentava sérios problemas com grupos rebeldes militares, que, sem querer, estimularam os movimentos pró-liberação em Angola e nas outras colônias, a lutarem mais fortemente por sua independência. O governo de transição durou muito pouco tempo; dois meses depois de instalado, os três partidos angolanos recomeçaram a lutar entre eles.

Para amenizar os problemas, Angola foi dividida em grupos, ficando para os partidos o controle de um numero igual de zonas. Aí foi onde o desespero e a proximidade com a morte, para muitos dos angolanos, começou.

Os Estados Unidos e a África do Sul apoiaram os grupos FNLA-Frente Nacional pela Libertação de Angola e UNITA-União Nacional pela Independência Total de Angola. A União Soviética apoiou o MPLA-Movimento Pela Libertação de Angola, que seguia a cartilha marxista. Em desvantagem, o MPLA pediu ajuda a Fidel Castro de Cuba, que enviou tropas de combate para o país.

Naquele ano (1975), mais de 90% da população branca já havia abandonado Angola, tirando do país a mão de obra especializada e semi-especializada. Foram mais de 300 mil portugueses que se foram.

“Lembro-me que havia uma guerra imensa. Muitos refugiados partindo para Portugal. Muitos outros paises colaboraram com o transporte. Nós, por exemplo, fomos pela Swissair gratuitamente”, relata Francisca.

Para poder sair do país, era preciso alistar-se, informando do desejo de ir para Portugal.

Fui ao palácio de governo fazer a inscrição da minha família. Éramos sete pessoas. Estacionei o carro, um Alfa Romeo, ano 1974, próximo ao Palácio, pois era lá que as inscrições estavam sendo feitas. Fui acompanhada do meu filho mais velho. Assim que entramos no Palácio, as portas se fecharam e começou um tiroteio do lado de fora. Gente correndo, tiros pra lá e pra cá. O MPLA, acabava de dar um golpe no Governo, do qual ele mesmo fazia parte, e nós, estávamos dentro da sede do Governo, no Palácio.

Puxei meu filho e fomos parar em baixo da mesa onde, segundos antes, conversávamos com a atendente. O que mais me impressionou daqueles momentos, foi a mocinha que estava responsável por fazer as inscrições. Agachada, meio que de cócoras, ela nos olhou e como se nada estivesse acontecendo, perguntou:

-Vai ou não vai inscrever-se?- disse ela olhando para nós embaixo da mesa onde escondíamos-nos, tentando livrar-se dos tiros e da chuva de vidros que caía sobre o local.

Para ela parecia que nada estava acontecendo. Cheguei até a pensar que nós é que exagerávamos. Por fim, ali mesmo no chão e com o livro aberto, escorado em uma das nossas pernas, entre vidro, escombros e muitas lágrimas, com as mãos trêmulas, fiz a inscrição da minha família. A moça nos deu um número e disse:

-Podem ir!- Agora escutem o rádio para saber o dia de seu embarque.

Não acreditei que ela quisesse que saíssemos com uma guerra lá fora.

Não saímos. Ficamos lá por muitas horas. Apenas ouvíamos o barulho dos “Panhards”, pois era assim que chamávamos os tanques de guerra. Já próximo da noite, saímos pelos fundos do palácio. Chegamos com muito sacrifício ao carro, que a esta altura estava metralhado, parcialmente destruído e com dois cadáveres próximos a porta direita, como se tivessem utilizado o veículo como escudo. Por milagre os pneus estavam intactos e o motor ainda funcionava. Na rua, era impressionante o número de sapatos, chinelos, chapéus, roupas “ - Neste momento Francisca chora e continua, tomada por soluços- “depois ficamos sabendo que muitos foram mortos e arrastados, outros tantos foram presos e depois fuzilados. Meu Deus, quanta gente morreu. Eu e meu filho, se não tivéssemos entrado no Palácio a tempo, certamente também teríamos morrido. Só então dei-me conta, realmente, das barbaridades que se passaram do lado de fora do palácio.

“Todos os dias eu saia para o trabalho e me despedia dos meus filhos, como se aquela fosse a última vez. Eu não sabia se voltava, ou mesmo se, quando retornasse, os meus filhos estariam vivos. Estávamos tão acostumados a viver entre balas e morte que um dia minha filha, que estava sentada na varanda de casa, comentou: “O que será que acontece? Tudo está tão tranqüilo, não tem tracejastes (tiros de morteiro) hoje!

Em Angola não havia televisão, inclusive a maioria das crianças nunca tinham visto uma e a única forma de ter notícias, era através do rádio. Em casa, todos faziam plantão de escuta, pois a qualquer momento poderíamos ser chamados para o embarque. Após longas semanas de espera, minha mãe ouviu os nossos números e nomes serem chamados no rádio. O embarque seria dois dias depois.

Eu estava no trabalho. “Ao chegar a casa, a euforia era grande e a preocupação também”.

-Vamos para Portugal!- disse-me minha filha chorando.

“Como não tínhamos malas, saí apressadamente para procurar caixas, madeiras, pregos, cordas, qualquer coisa para preparar nossa bagagem”.

Estávamos felizes nesse dia. Meu marido estava no trabalho e não agüentei esperar chegar à noite para contar-lhe e sai feliz a sua procura. De ônibus sai imediatamente para compartilhar com ele a boa notícia, em meio a tanta guerra, destruição e morte, estava muito feliz.

No caminho pensei em tantas coisas bonitas que em Portugal passaríamos a ter. Um melhor emprego, um apartamento bonito, próximo ao mar, passear com meu marido e dedicarmos mais um ao outro, já que não teríamos o “stress” do dia-a-dia de guerra em que vivíamos. Apesar de tudo, eu estava muito feliz e queria logo dividir com ele os meus planos e minha felicidade.

“Ao chegar próximo ao lugar de trabalho do meu marido, imediatamente vi meu carro e, em seguida, uma mulher entrando nele. Achei estranho e cheguei a pensar que não era meu carro, até que vi o meu marido ir ao encontro daquela mulher, abraça-la e beija-la.

-Ele tinha um amante!,
conta Francisca que neste momento pede para parar a conversa.

Dali mesmo e já sem a mesma alegria, fez questão que o marido percebesse a sua presença, mas de forma muito digna apenas deu as costas e em prantos voltou para casa de ônibus e sem dar a notícia.

No dia seguinte, todos foram para o aeroporto vinte horas antes do embarque. Francisca, quatro filhos e a mãe. O marido, que no dia anterior havia sido flagrado com outra mulher pela própria esposa, tinha raiva, muita raiva, pois como nos conta Francisca “ele queria que eu aceitasse”.

Neste dia Francisca colocou seu melhor vestido e pela primeira vez usou um sapato alto, comprado naquela semana na feira do seu bairro. Embora ainda sob o efeito do choque da descoberta da infidelidade do marido, estava feliz. Ao chegar ao aeroporto ainda meio que sem jeito com o novo sapato, que apertava, segurava uma caixa de papelão contendo suas roupas, em uma mão e na outra uma caixa de madeira. Com tanto peso, desequilibrou-se, tropeçou e caiu. Em meio ao sangue que jorrava dos joelhos, o marido passou perto e nada fez. “Ele não mexeu um dedo para ajudar-me”, lembra Francisca e continua, “a caixa de papelão rasgou-se e tudo caiu”. Ela chora.

O aeroporto em que a família embarcava era militar e estava totalmente ocupado por tropas portuguesas. O clima era muito ruim. Todos muito agressivos. Em um determinado momento o filho mais velho (15anos) de Francisca, sem muito que fazer naquele aeroporto, foi ver onde as suas caixas estavam. Sem saber entrou numa área proibida. A reação dos militares portugueses foi imediata, apontaram as armas e prenderam o menino por mais de 5 horas, querendo saber o que ele queria entrando naquela área. Interrogaram e torturaram uma criança de 15 anos. Por mais explicações que dava, menos aceitavam, menos convencia os militares. A estas alturas Francisca e as outras crianças, que antes dormiam no chão do aeroporto, estavam desesperadas a procura do garoto. O clima de terror tomou conta da família. Finalmente apareceu o garoto, todo marcado, nariz sangrando, haviam espancado o menino.

Por fim embarcaram. O marido que iria embarcar também, preferiu ficar com a amante. Embora tenha avisado a família no momento do embarque, Francisca desconfia que ele já tenha decidido isto muito antes.

Ao aterrizarem em Portugal, no Aeroporto da Portela, “sentimos alívio, mas logo ao desembarcarmos, o medo voltou”, encontraram um saguão, que estava mais para acampamento do que para aeroporto. Centenas de angolanos dormindo no chão, restos de comida, os banheiros fediam, crianças sujas e com fome por todos os lados. Todos refugiados, ou como diziam os portugueses, todos “retornados”.

Embora estivesse em seu país, “nos sentíamos estrangeiros”, Francisca não esperava que ninguém estivesse no aeroporto esperando-os, muito menos que as coisas fossem ser fáceis. “Além de sairmos de Angola de surpresa, a casa da tia do meu marido não tinha telefone”. Chegaram a Portugal e agora o problema imediato seria chegar a casa de um parente, mas como, se não havia dinheiro? Francisca foi ao sutiã e de lá conseguiu tirar o equivalente a quatro passagens de ônibus, era seis. O que fazer? “Falei com uns cinco ou seis motoristas diferentes de ônibus e ninguém queria levar a gente”. Primeiro não tínhamos todo o dinheiro, depois carregávamos muita coisa.

Por fim, já aos prantos e pedindo pelo amor de Deus, conseguiu convencer a um motorista de origem angolana que, consciente do problema, disse: “Pode entrar senhora, eu levarei todos”, conta bastante emocionada.

“Ai fomos, eu, meus quatro filhos pequenos e minha mãe doente, sem, falar de nossos caixotes de madeira e de papelão, uns pregados e outros amarrados com corda. Ali estavam nossos bens”. O sacrifício para entrar e sair do ônibus era imenso e ninguém ajudava. “Jamais esquecerei era a rota-Aeroporto da Portela/Birro da Ajuda-ônibus 134”.

Horas depois a família chegou à casa da tia que morava com mais dois filhos em um apartamento de dois quartos. “Agora éramos nove pessoas, para se acomodar como pudesse”.

Já no dia seguinte, Francisca foi à busca de emprego. Sentiu imediatamente o que até então desconhecia: a discriminação. “Os portugueses tinham mais medo do que discriminação, afinal de contas éramos melhores qualificados do que eles para o trabalho. O Tratamento era muito ruim, vez por outra, quando dizíamos que éramos de Angola, logo diziam, “outro retornado”? Aqui não tem emprego”, lembra-se.

“Uma vez escutei o primeiro ministro dizer da sacada do Palácio de Belém, durante um comício, que o melhor mesmo seria colocar todos os retornados no campo Pequeno e fuzila-los”. Francisca havia fugido de uma guerra e de um marido infiel, para se proteger em uma sociedade que perseguia e discriminava, que destino!

”Passamos a não ser nem de Angola e nem de Portugal. O correto era chamar-nos de despatriados ao invés de retornados”, sentencia.

A casa começou a apertar, a tia a reclamar, o emprego não saia. As coisas, que pareciam piorar, tomaram de repente outro rumo, quando escutou no centro da cidade, na fila de ônibus, alguns angolanos conversando sobre a invasão de uns apartamentos construídos e desocupados. “Imediatamente fiz parte da conversa e sai dali com a data da invasão”. Eram 35 angolanos, incluindo Francisca e sua família que em uma quarta-feira, outra vez com as caixas embaixo dos braços, desta vez sem os sapatos altos, embarcaram no último trem da Estação Cais do Sodré com destino ao bairro Tapada do Mocho.

“Invadimos os apartamentos de madrugada, o nosso ainda não estava terminado não havia portas e nem janelas”, lembra-se Francisca. O governo nada fez. Eles acabaram vendo naquela invasão a solução de um grande problema. Semanas depois, o governo não só ajudou os moradores a terminarem as obras, como também negociou a indenização aos proprietários originais.

Tudo parecia que estava começando a dar certo, finalmente. Francisca semanas depois conseguiu emprego e um ano depois, chegou de surpresa o marido. Havia perdido tudo e queria refazer a vida com família. Francisca aceitou.

Passado um ano, como muitos amigos estavam vindo para o Brasil, o marido resolveu levar a família para lá também. Ficou combinado que ele iria antes, para preparar o ambiente e, só então, a família deveria ir. Ele foi morar em Foz do Iguaçu, onde ainda mora, e de lá providenciou a ida da família.

“Fomos de navio, era o Eugênio C. Este foi outro dia triste na minha vida. Havíamos naqueles dois anos, feito muitas amizades e meus filhos tinham muitíssimos amigos. Todos foram ao porto para a despedida. Partida de navio sempre é muito triste”, conta Francisca. Os amigos não se contentaram em despedir-se no porto e seguiram ao longo do Rio Tejo até Cascais, com os carros em caravana, luzes acesas, buzinas e quando o navio saía do Rio e entrava no mar, era noite. Os amigos, então resolveram fazer-lhes uma última homenagem, acederam seus isqueiros, tochas e acenavam dando adeus. “Foi muito triste. Jamais vou me esquecer deles...”

O desembarque foi no Porto de Santos. Mais uma vez Francisca se viu desembarcando em terra estranha com quatro filhos e uma mãe, que estava agora mais doente. O marido não estava esperando. Aos poucos os passageiros que chegavam iam-se, esvaziando o porto e os que chegavam para o embarque enchiam o porto. O navio havia ancorado às 9.25 da manhã, mais o marido só apareceu e irritado as 20 horas. Ao invés de levá-los para Foz do Iguaçu, deixou a todos em um hotel em Curitiba.

Vinha visitá-los uma vez por mês. Meses depois, Francisca soube que ele havia trazido para o Brasil a amante de Angola. “Ali foi demais. Apaguei-o das minhas lembranças”, diz Francisca e continua, “a vida no Brasil foi muito boa, tenho excelentes recordações. Meus filhos se sentem brasileiros, pois foi ali que eles se criaram”. Francisca e seus filhos moraram 14 anos em Curitiba e, em 1991, decidiu mudar-se para os Estados Unidos com as duas filhas.

A mãe de Francisca morreu antes de irem para os Estados Unidos. O filho mais velho morreu no dia 10 de abril de 1996, em um acidente de carro o outro filho, o mais jovem, casado, no final de 1996, sem conseguir visto para os Estados unidos, enfrentou os perigos de uma travessia a pé e a nado na fronteira canadenses e conseguiu se unir a família. O marido continua morando em Foz do Iguaçu, agora casado com aquela que fora amante. As duas filhas também residem nos Estados e estão casadas e com filhos. Francisca continua trabalhando e ajudando a criar os netos.

Um comentário:

  1. Roni admiro seu trabalho e postura, é um brasileiro de muito valor e ciente da nossa história e da nossa cultura, te assisto todos os dias no Noticias e Mais na CNT.
    Um abraço!

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